Marcello José Abbud observa que um dos erros mais recorrentes na formulação de políticas públicas de resíduos sólidos é a tendência de reinventar a roda. Países que resolveram o problema do lixo urbano nas últimas décadas deixaram registros técnicos, modelos regulatórios e lições operacionais que estão disponíveis e que, com as devidas adaptações, podem ser aplicados à realidade brasileira com resultados concretos.
O Brasil ocupa uma posição paradoxal nesse debate: é um dos maiores geradores de resíduos sólidos urbanos do mundo e, ao mesmo tempo, um país com enorme potencial para a valorização desses materiais, dado o tamanho de sua economia, a extensão do território e a diversidade de sua base industrial. Aprender com cases internacionais não significa copiar modelos, mas extrair princípios que funcionaram em contextos distintos e testá-los com inteligência na realidade local.
Os exemplos que mais têm chamado a atenção de especialistas e gestores públicos vêm de países europeus, asiáticos e latino-americanos com trajetórias muito diferentes entre si. Continue lendo para entender quais lições cada um desses casos oferece e como elas se traduzem em oportunidades práticas para municípios brasileiros.
O que a Europa ensina sobre a hierarquia dos resíduos na prática?
A experiência europeia, especialmente a de países como Alemanha, Suécia e Holanda, é frequentemente citada como referência, mas raramente compreendida em sua essência. O que esses países construíram não foi apenas infraestrutura de tratamento, mas uma hierarquia de resíduos operacionalizada em política pública: primeiro a redução na fonte, depois o reúso, a reciclagem, a recuperação energética e, por último, a disposição em aterro. Essa sequência, que no Brasil está prevista na PNRS desde 2010, ainda carece de instrumentos concretos de implementação na maior parte dos municípios.
Segundo Marcello José Abbud, o ponto mais replicável da experiência europeia não é a tecnologia, mas a governança. Sistemas de responsabilidade estendida do produtor, que obrigam fabricantes e importadores a custear a logística reversa de suas embalagens, geraram fluxos financeiros que sustentam a coleta seletiva sem depender exclusivamente do orçamento público. O Brasil regulamentou instrumentos similares, mas a efetividade ainda é desigual entre setores e regiões.

Quais lições o modelo asiático oferece para cidades densas e com alta geração de resíduos?
Japão e Coreia do Sul enfrentaram, a partir dos anos 1980 e 1990, uma crise de espaço físico para disposição de resíduos que forçou a adoção acelerada de tecnologias de tratamento e modelos de responsabilidade individual. A experiência japonesa é especialmente relevante para cidades brasileiras de médio e grande porte, onde a densidade urbana começa a inviabilizar a expansão de aterros próximos aos centros geradores.
No Japão, o sistema de separação domiciliar é altamente detalhado, com categorias específicas de resíduos coletadas em dias diferentes da semana. O que mais chama atenção não é a complexidade do sistema, mas o fato de ele funcionar sem coerção permanente: a adesão é cultural, construída ao longo de gerações por meio de educação, clareza nas regras e consequências reais para o descumprimento. Marcello José Abbud aponta que municípios brasileiros que tentaram implementar coleta seletiva sem trabalho consistente de comunicação e engajamento social não colheram resultados, independentemente do investimento em infraestrutura.
Exemplos da América Latina que chegam mais perto da realidade brasileira
Nem sempre é preciso olhar para a Europa ou a Ásia. Dentro da própria América Latina existem experiências relevantes que compartilham desafios estruturais similares aos do Brasil: desigualdade social, informalidade, limitações orçamentárias e uma grande população de catadores que compõem a espinha dorsal da reciclagem urbana.
Bogotá, na Colômbia, desenvolveu um modelo de inclusão produtiva de catadores reconhecido internacionalmente. O programa formalizou cooperativas, garantiu remuneração por serviço prestado e integrou os catadores à política pública de resíduos, reduzindo a informalidade e melhorando os índices de recuperação de materiais recicláveis. De acordo com Marcello José Abbud, o Brasil tem mais de 400 mil catadores atuando de forma precária, e sua integração formal ao sistema de gestão de resíduos representa tanto uma obrigação social quanto uma oportunidade econômica concreta.
O que os cases internacionais revelam sobre o caminho que o Brasil ainda precisa percorrer?
Os cases internacionais de sucesso na gestão de resíduos não apontam para uma tecnologia específica nem para um modelo regulatório universal. Eles convergem, como destaca Marcello José Abbud, em torno de três elementos comuns: política pública de longo prazo, financiamento estruturado e cultura de responsabilidade compartilhada entre poder público, setor privado e cidadão.
O Brasil tem os ingredientes para avançar. Tem legislação de referência na PNRS, tem escala de mercado para viabilizar tecnologias, tem uma cadeia de reciclagem informal que pode ser formalizada e tem municípios que, pressionados por obrigações legais e fiscais, estão mais abertos do que nunca a soluções inovadoras.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

