O plantio da safra de verão começou sob o alerta de um dos eventos climáticos mais intensos dos últimos anos. Na análise de Alfredo Moreira Filho, empresário especializado em gestão empresarial, momentos como este mostram a importância do planejamento no agronegócio, já que o clima é uma variável que o produtor não controla, mas pode aprender a gerenciar.
O Painel El Niño, formado pelo Instituto Nacional de Meteorologia, o Inmet, e por outras seis instituições federais, aponta 95% de probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro, com efeitos que devem se estender até o início do próximo ano. Entenda, nos tópicos a seguir, o que isso significa para as diferentes regiões produtoras.
O que é o El Niño e por que este episódio preocupa?
O El Niño é um fenômeno natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial. Essa mudança altera a circulação da atmosfera e afeta o regime de chuvas e as temperaturas em várias partes do mundo. No Brasil, os efeitos variam bastante de uma região para outra, o que torna a análise mais complexa.
Especialistas lembram que o fenômeno não significa, automaticamente, quebra de safra. Os impactos dependem da intensidade do evento, do calendário de cada cultura e das condições locais de solo e manejo. Ainda assim, a previsão de um episódio muito forte exige atenção redobrada. Como sinaliza Alfredo Moreira, a informação climática se tornou uma ferramenta de gestão tão importante quanto o controle de custos.
Sul: excesso de chuva no início da safra
Historicamente, a Região Sul é uma das mais afetadas pelo El Niño, especialmente na primavera e no verão. A previsão indica chuvas acima da média, o que favorece a recarga de reservatórios, mas traz riscos de temporais, erosão e maior incidência de doenças fúngicas nas lavouras.
A colheita do trigo, que coincide com o pico do fenômeno, é apontada por análises do mercado de seguros como a cultura de maior risco imediato. No último super El Niño, em meados da década passada, o trigo registrou o maior volume de perdas da série histórica do seguro, com concentração no Rio Grande do Sul. O milho de primeira safra e a soja também merecem atenção, sobretudo durante a floração. Segundo Alfredo Moreira Filho, o excesso de chuva pode ser tão prejudicial quanto a seca quando atinge a lavoura no momento errado.

Norte, Nordeste e Matopiba: risco de seca
No Norte e no Nordeste, o cenário é oposto. A previsão aponta chuvas abaixo da média e risco de estiagens severas, inclusive no Matopiba, região formada por áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia e considerada uma das principais fronteiras agrícolas do país. Avaliações do setor indicam que a incidência de queimadas pode subir até 40% em relação à média histórica.
As culturas de sequeiro estão entre as mais vulneráveis. Estudo do centro de agronegócio do Insper aponta que, em anos de El Niño, o rendimento do feijão de sequeiro foi cerca de 6% menor nas regiões Norte e Nordeste. A seca também pode afetar a navegação nos rios amazônicos e, consequentemente, o escoamento de grãos pelos portos do Arco Norte. Em linha com o que expõe Alfredo Moreira, a dependência dos rios torna a logística da região especialmente sensível a esses eventos.
Centro-Oeste e as estratégias de preparação
No Centro-Oeste e no Sudeste, a previsão indica temperaturas bem acima da média e chuvas irregulares, o que pode atrasar o plantio da soja e dificultar a definição da janela ideal de semeadura. Por outro lado, a segunda safra de milho tende a escapar dos piores efeitos, já que o fenômeno deve estar em fase de dissipação durante sua fase reprodutiva.
Diante desse cenário, especialistas recomendam acompanhar de perto as previsões climáticas, escalonar o plantio, escolher cultivares adaptadas, revisar a contratação de seguro rural e reforçar o planejamento financeiro para enfrentar possíveis atrasos ou perdas. Ao contrário de episódios anteriores, desta vez os produtores tiveram meses de antecedência para se preparar. No olhar de Alfredo Moreira Filho, essa antecedência transforma a informação climática em vantagem para quem sabe planejar.

