Durante muitos anos, a medicina foi guiada pela ideia de que descobrir mais doenças e realizar mais tratamentos significava, inevitavelmente, oferecer um cuidado melhor. Esse raciocínio contribuiu para importantes avanços no combate ao câncer de mama, principalmente por meio do diagnóstico precoce. Entretanto, Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, médico radiologista e ex-secretário de Saúde, frisa que, à medida que o conhecimento científico evoluiu, surgiu uma discussão igualmente importante: será que todo câncer diagnosticado precisa receber exatamente o mesmo tratamento? E mais: será que tratar além do necessário também pode trazer prejuízos para a paciente?
Um dos maiores desafios da oncologia moderna é encontrar o equilíbrio entre agir rapidamente quando necessário e evitar intervenções que não tragam benefícios reais. Esse conceito, conhecido internacionalmente como overtreatment ou tratamento excessivo, não significa deixar de tratar um câncer, mas sim evitar procedimentos desnecessários quando as evidências científicas mostram que abordagens menos agressivas podem oferecer resultados semelhantes com menor impacto sobre a qualidade de vida da paciente.
Descobrir um tumor nem sempre significa que ele terá o mesmo comportamento
Embora o termo “câncer de mama” seja utilizado como se representasse uma única doença, a realidade é muito mais complexa. Existem diversos subtipos tumorais, cada um com características biológicas próprias, velocidades de crescimento diferentes e respostas distintas aos tratamentos. Alguns apresentam comportamento altamente agressivo, enquanto outros evoluem lentamente durante muitos anos.
Essa compreensão modificou profundamente a forma como médicos interpretam um diagnóstico oncológico. Hoje, além de confirmar a presença da doença, é fundamental avaliar fatores como tamanho do tumor, grau histológico, perfil molecular, presença de receptores hormonais, expressão do HER2, índice de proliferação celular e extensão da doença. Segundo o Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, compreender a biologia do tumor é essencial para definir a melhor estratégia terapêutica, pois dois cânceres aparentemente semelhantes podem exigir abordagens completamente diferentes.
Medicina baseada em evidências substituiu decisões padronizadas
Nas últimas décadas, grandes estudos clínicos internacionais demonstraram que tratamentos extremamente agressivos nem sempre oferecem melhores resultados quando comparados a estratégias mais individualizadas. Essa mudança levou ao fortalecimento da medicina baseada em evidências, na qual cada decisão terapêutica é sustentada por pesquisas científicas de alta qualidade.
Hoje, recomendações internacionais elaboradas por instituições como NCCN, ASCO, ESMO e St. Gallen orientam quais pacientes realmente se beneficiam de cirurgias mais extensas, quimioterapia, radioterapia ou terapias-alvo. Em muitos casos, essas diretrizes permitem reduzir procedimentos sem comprometer a segurança oncológica, preservando a qualidade de vida e diminuindo complicações desnecessárias.
O diagnóstico por imagem também ajuda a evitar tratamentos desnecessários
A evolução dos exames de imagem teve impacto direto nessa mudança de paradigma. Mamografia digital, tomossíntese, ultrassonografia de alta resolução e ressonância magnética fornecem informações muito mais detalhadas sobre extensão da doença, multifocalidade, resposta ao tratamento e características das lesões.

Esses recursos permitem definir com maior precisão quais pacientes realmente necessitam de procedimentos mais amplos e quais podem ser conduzidos de forma mais conservadora. Além disso, o acompanhamento por imagem durante o tratamento ajuda a avaliar a resposta terapêutica, evitando tanto intervenções insuficientes quanto excessivas. Para o Dr. Vinicius Rodrigues, quanto mais preciso for o diagnóstico por imagem, maior será a capacidade da equipe médica de indicar apenas os tratamentos realmente necessários, reduzindo riscos sem comprometer a eficácia do cuidado.
O excesso de tratamento também pode gerar consequências importantes
Quando se fala em tratamento excessivo, muitas pessoas imaginam apenas custos financeiros. No entanto, as consequências vão muito além disso. Cirurgias mais extensas podem aumentar o risco de limitações funcionais e linfedema; quimioterapias desnecessárias podem provocar efeitos adversos importantes; e tratamentos prolongados podem impactar significativamente a saúde física, emocional e social das pacientes.
Por esse motivo, o objetivo da oncologia moderna não é simplesmente tratar mais, mas tratar melhor. Isso significa buscar o máximo benefício clínico com o menor impacto possível sobre a qualidade de vida, sempre considerando as características individuais de cada mulher e as evidências científicas disponíveis.
Decisões são tomadas por equipes multidisciplinares, não por um único especialista
Outro aspecto que reduziu significativamente o risco de tratamentos excessivos foi a consolidação das equipes multidisciplinares. Atualmente, casos de câncer de mama frequentemente são discutidos em reuniões que reúnem radiologistas, mastologistas, oncologistas clínicos, patologistas, radio-oncologistas e geneticistas.
Cada especialista contribui com informações específicas sobre o diagnóstico, a biologia tumoral e as possibilidades terapêuticas. Essa integração reduz incertezas e aumenta a segurança das decisões clínicas, permitindo que cada paciente receba uma estratégia realmente individualizada. Conforme explica o Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, a melhor decisão raramente nasce da opinião isolada de um único profissional. Ela resulta da integração entre diferentes áreas do conhecimento, sempre orientadas pela medicina baseada em evidências e pelas características específicas de cada paciente.
O futuro da oncologia será oferecer o tratamento certo para a paciente certa
Os avanços da biologia molecular, dos testes genéticos, da inteligência artificial e do diagnóstico por imagem estão tornando possível compreender cada vez melhor o comportamento dos tumores antes mesmo do início do tratamento. Essa transformação permite abandonar modelos padronizados e construir estratégias terapêuticas personalizadas, equilibrando eficácia, segurança e qualidade de vida.
Para o Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, o maior desafio da medicina contemporânea não é apenas diagnosticar o câncer mais cedo, mas garantir que cada paciente receba exatamente o tratamento de que necessita, nem menos, colocando sua saúde em risco, nem mais, expondo-a a procedimentos desnecessários. Esse equilíbrio representa um dos pilares da oncologia moderna e da verdadeira medicina baseada em valor.
O conhecimento científico demonstra que cuidar melhor não significa necessariamente fazer mais. Significa utilizar as melhores evidências disponíveis para oferecer uma assistência individualizada, capaz de combinar diagnóstico preciso, tratamento adequado e respeito às necessidades de cada paciente. Esse é o caminho que vem transformando o cuidado do câncer de mama em todo o mundo e que continuará moldando a medicina nas próximas décadas.

