Estudo recente da Comissão de Valores Mobiliários sobre a eficácia do processo de análise de perfil do investidor aponta espaço de aprimoramento, justamente no momento em que cresce o número de pessoas físicas que ingressam em cotas de FIDCs e outras estruturas de crédito privado
Antes de investir em uma cota sênior de FIDC, em uma debênture de infraestrutura ou em qualquer outro produto financeiro no Brasil, todo investidor passa, ao menos formalmente, por um processo chamado Suitability, que avalia se aquele produto é compatível com seus objetivos, seu horizonte de investimento e sua tolerância a risco. Regulado pela Resolução CVM 30, esse processo existe justamente para evitar que um investidor conservador, por exemplo, acabe alocando parte relevante de seu patrimônio em uma estrutura de crédito privado com risco muito superior ao que estaria disposto a assumir, ou que desconheça as características de liquidez de um produto antes de comprometer recursos que poderia precisar no curto prazo.
Um estudo recente conduzido pela própria Comissão de Valores Mobiliários sobre a eficácia desse processo trouxe um retrato misto da indústria. Por um lado, o levantamento identificou avanços relevantes desde a implementação da norma, como a redução da parcela de investidores com perfil de risco não mapeado. Por outro, uma pesquisa com milhares de investidores revelou que a maior parte deles raramente ou nunca leva em conta, na prática, a análise de perfil realizada por sua corretora ou plataforma de investimento no momento de tomar decisões financeiras, sinal de que o processo, embora formalmente cumprido, ainda não capturou plenamente sua função de orientar o investidor no dia a dia.
Complexidade dos produtos de crédito privado exige atenção redobrada ao perfil do investidor
Entre as recomendações do estudo da autarquia está a incorporação de um critério de complexidade na classificação de valores mobiliários, reconhecendo que produtos como FIDCs, com suas diferentes classes de cotas e níveis de subordinação, exigem um nível de compreensão distinto do exigido por um investimento em renda fixa tradicional. Essa recomendação dialoga diretamente com a realidade de um mercado de crédito estruturado que ampliou significativamente sua base de investidores pessoa física nos últimos anos, muitos deles sem experiência prévia com esse tipo de ativo.
Para Saudir Filimberti, diretor da ID CTVM, a complexidade crescente das estruturas de crédito privado torna o Suitability uma ferramenta ainda mais relevante, e não menos:
“Um FIDC com múltiplas classes de cotas não é um produto trivial de se entender para quem nunca investiu nesse tipo de estrutura. O Suitability existe justamente para garantir que o investidor compreenda, antes de aplicar seus recursos, características como a subordinação entre classes e o horizonte de liquidez do produto. Quando esse processo é tratado como mera formalidade, tanto pela plataforma de distribuição quanto pelo próprio investidor, o mercado perde justamente a camada de proteção que deveria sustentar a confiança de quem está começando a investir em crédito privado”, avalia o executivo.
Administrador fiduciário fornece informação técnica que sustenta o processo
Ainda que o processo de Suitability seja conduzido diretamente por corretoras e plataformas de distribuição, administradores fiduciários desempenham papel relevante ao fornecer informação técnica precisa e acessível sobre as características de risco de cada estrutura sob sua administração, insumo essencial para que o distribuidor consiga orientar corretamente um investidor durante a análise de adequação. Documentos regulatórios como o regulamento do fundo e o material técnico que descreve a estrutura de subordinação entre classes de cotas precisam ser redigidos de forma que permitam essa avaliação com precisão.
A ID CTVM, que reúne mais de 9 mil contas operacionais ativas sob sua administração, disponibiliza a gestoras e distribuidores informações detalhadas sobre a estrutura de risco de cada fundo sob sua administração, contribuindo para que o processo de Suitability conduzido por terceiros seja sustentado por dados técnicos precisos e atualizados sobre cada estrutura.
Novas regulações devem reforçar a eficácia do processo
O próprio estudo da Comissão de Valores Mobiliários aponta que regulações mais recentes, voltadas à divulgação de remuneração de distribuidores e à portabilidade de investimentos entre instituições, devem contribuir para elevar a eficácia geral do processo de Suitability nos próximos anos, ao reduzir potenciais conflitos de interesse na recomendação de produtos e ao facilitar que o investidor migre seus investimentos entre diferentes plataformas sem perder o histórico de seu perfil de risco já mapeado.
Perspectivas para a proteção do investidor de crédito privado
Com a base de investidores pessoa física em fundos estruturados seguindo em expansão, o aprimoramento contínuo do processo de Suitability deve se consolidar como uma prioridade compartilhada entre reguladores, distribuidores e administradores fiduciários. Para a indústria de crédito privado brasileira, garantir que a análise de perfil do investidor cumpra sua função protetiva na prática, e não apenas no papel, deve seguir como um fator determinante para sustentar a confiança de um público cada vez mais numeroso e menos experiente que passou a ter acesso a esse tipo de produto.
Sobre a ID CTVM
A ID CTVM é uma instituição especializada em infraestrutura para o mercado de capitais, com serviços de administração fiduciária, custódia, escrituração, controladoria e distribuição de fundos de investimento. Fundada em 2020, a companhia reúne atualmente mais de 550 fundos e mais de R$ 50 bilhões sob administração e custódia, com presença relevante em estruturas como FIDCs, FIPs e FIIs. Combinando tecnologia, governança, conhecimento regulatório e eficiência operacional, a ID oferece suporte a gestores, investidores, empresas e demais participantes do mercado, contribuindo para operações mais seguras, eficientes e transparentes.

